:: Apresentação  
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
   
Semana Social Arquidiocesana - 2003

ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Palestrante: Mariângela Risério D’Almeida

O que é espiritualidade? O que entendemos quando falamos em espiritualidade?

Para D. Pedro Casaldáliga esta é uma palavra infeliz, pois, tomou-se para alguns sinônimo de algo distante da vida real, inútil. Vivemos em um mundo onde as palavras são freqüentemente esvaziadas pelo seu uso, pela repetição massificada, o que as torna insignificantes.

S. Paulo define muito bem espiritualidade quando diz em Rm.8,14: "Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus". Deixar-se guiar, conduzir pelo Espírito Santo eis a chave deste caminho. Não é fácil, é um caminho para a vida toda. Aceitar que somos aprendizes neste caminho, e que nunca estaremos definitivamente prontos. É um caminho processual, vai se constituindo aos poucos, passo a passo. "O Espírito está pronto, mas a carne é fraca". E um caminho contraditório, conflitivo. Quando nascemos somos estimulados pêlos nossos pais a conquistar independência, autonomia, etc. O caminho do Espírito é outro: é o caminho da submissão à vontade de Deus, aprender como Cristo aprendeu a obediência à voz do Espírito, ao sopro do vento que não sabemos de onde vem nem para onde vai. Duro aprendizado para nós que costumamos ser muitas vezes auto-suficiente, voluntarista, presunçoso. É um caminho quenótico.

É um caminho que começa num encontro. Encontro que faz nosso coração arder, como o de Moisés na sarça. É preciso deixar-se queimar neste encontro, experimentar este amor de Deus que é fiel e nos promete: "Quando você atravessar a água, eu estarei com você e os rios não o afogarão; quando você passar pelo fogo, não se queimará e a chama não o alcançará..." (Is.43,2)

Relação do humano com o divino: caminho exigente; relação de amor, de aliança. Encontro com o Senhor no Espírito, dom e gratuidade.

Abertura ao espiritual: entrar nesse caminho com grande animo e liberalidade com seu Criador e Senhor. Sta.Teresa D'Avila costumava comparar sua relação com Deus a um casamento. Dizia que a primeira etapa de sua vida religiosa ela comparava a um casamento por interesse onde ela apenas se preocupava com o que podia receber de Deus. Na segunda etapa é que de fato o casamento tornou-se por amor e aí então ela passou a procurar o que podia fazer por Deus.

Vida espiritual exige discernimento, decisão, coragem, querer.

Estar capacitado pelo Espírito para optar como Cristo, concretamente hoje em nossa história e situação.

A fidelidade espiritual se traduz em primeiro lugar e necessariamente, na fidelidade do tempo presente, ao agora, ao hoje, para não fugir nunca da realidade. E preciso contextualizar, no hoje da nossa vida, da nossa história, os apelos do Espírito: por onde me conduz? Como me interpela? Que inquietações desperta em mim, na minha vida, na minha comunidade? Quais são as minhas lutas, os meus desejos? Pêlos meus desejos e da minha comunidade passam os desejos de Deus? É um caminho progressivo de configuração à Cristo.

Para ir ao céu não temos outro caminho além da terra. Somente na História podemos ir acolhendo e esperando e fazendo o Reino.

Somos pessoas de corpo e alma em unidade indissolúvel; não somos espíritos puros. A espiritualidade cristã não é um espiritualismo desencarnado. E o seguimento do Verbo encarnado em Jesus de Nazaré;

O vento do Espírito sopra onde quer, não está amarrado e remove e renova os corações e as estruturas. Se permitirmos que o vento cale, se o poder do legalismo abafa a voz do Espírito, expomo-nos a não ouvir a Deus, nem na Bíblia nem na oração, comunitária ou individual, litúrgica ou privada. Ou nos expomos a ouvir outros deuses.

É preciso dar-se à Graça e aos irmãos, experimentar o que se anuncia, ser o que se prega, testemunhar com a própria vida o mistério que se celebra. É configurar-se ao Verbo.

Não há caminho feito na espiritualidade, mesmo quando seguimos mestres e escolas, antigos ou modernos, e mesmo sentindo-nos envolvidos pela multidão de irmãos e irmãs que nos precederam ou nos acompanham na aventura. Não há caminho feito, mas Ele é o Caminho. E ele mesmo é o pão e o vinho da caminhada. E uma aventura em aberto, uma luta totalmente arriscada, o jogo máximo de nossa liberdade; é tanto o sentido como a busca de nossa existência.

Espírito em oposição a corpo (conceito grego do espiritual). Para a Bíblia, espírito não se opõe à matéria, nem ao corpo, nem à destruição; opõe-se à carne, à morte (a fragilidade do que está destinado à morte); e opõe-se à lei ( a imposição, o medo, o castigo). Neste contexto semântico significa vida, construção, força, ação, liberdade.

O espírito de uma pessoa é o mais profundo de seu próprio ser: suas motivações últimas, seu ideal, sua utopia, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia os outros.

Espiritualidade é também uma realidade comunitária; é como a consciência e a motivação de um grupo, de um povo.

O espírito é a dimensão essencial da pessoa humana na qual o Espírito de Deus encontra a plataforma privilegiada de atuação sobre a própria pessoa. O Espírito de Deus age no espírito dos humanos. Dá-lhes espírito, quer dizer, profundidade, energia, liberdade, vida em plenitude.

A Espiritualidade bíblica é atravessada por 2 grandes linhas: profética e contemplativa A espiritualidade é própria de cada período da história. Em cada época o Espírito deixa suas marcas.

A espiritualidade encarnada deve ser mística profética exercendo uma crítica ético-teológica da realidade.

Características da espiritualidade profética: denúncia/ indignação/ apaixonada pela causa da justiça/ resistência nos conflitos.

Não há espiritualidade sem flexibilidade, disposição de mudança, jogo de cintura.

A espiritualidade profética desemboca na mística contemplativa e vice-versa.

Espiritualidade contemplativa é a atitude de quem está vivendo com intensidade cada momento. Segundo C. Mesters é atitude de quem mergulha dentro dos fatos para descobrir e saborear neles a presença ativa e criativa da Palavra de Deus.

Dificuldades que encontramos para viver uma espiritualidade encarnada: fragmentação da sociedade; sociedade do bem-estar físico e mental onde o absoluto é ser feliz. A grande tentação é esvaziar a cruz, fugir das dores deste mundo, acovardar-se.

Para resistir e manter a lucidez é necessário estarmos inseridos numa comunidade de fé que alimente nossa adesão ao evangelho.

Para vivermos uma espiritualidade encarnada é necessário ter a vida alimentada pela oração e pela eucaristia.

A espiritualidade encarnada é uma espiritualidade de discernimento. Para haver discernimento é necessário experiência de oração. Ela vai nos permitir entrar nos interesses de Jesus, no mundo de Jesus. Vai nos permitir abraçar o projeto de Jesus para toda humanidade. Um projeto de justiça, amor, solidariedade. Enfim, vai nos colocar no seguimento de Jesus, nos levar a optar pela vida.

Para partilhar com vocês trouxe uma oração de um místico do século XX, Pé. Pedro Arrupe, jesuíta que foi Superior Geral da Companhia de Jesus. Esta oração, no ano passado, provocou um incêndio no meu coração e saudáveis inquietações na minha vida.

"Não há nada mais prático que encontrar a Deus. Na verdade, encontrá-lo é enamorar-se completamente e não olhar para trás. Aquele de quem te enamoras, arrebata tua imaginação e envolverá todo o teu ser. Determinará o que fazes ao levantar pela manhã, o que farás com teus entardeceres, como passarás teus finais de semana, o que lês, quem conheces, o que te irrompe o coração o que te enche de súbito com alegria e agradecimento. Enamora-te, permanece enamorado e isto decidirá tudo em ti".

Para finalizar convido a todos para juntos rezarmos a poesia:

GASTAR A VIDA (Luis Espinal, sj)

Jesus Cristo disse:
"Quem quiser economizar a sua vida, vai pede-la;
e quem gastar a sua vida por Mim,
vai recuperá-la na vida eterna".
Mas nós temos medo de gastar a vida,
entregá-la sem reservas.
Um terrível instinto de conservação
nos conduz ao egoísmo,
e nos ameaça quando queremos lançar-nos.
Temos seguros por toda parte,
para evitar os riscos.
E acima de tudo está a covardia...
Senhor Jesus,
temos medo de gastar a vida. Mas a vida nos foi dada por Ti, para que a gastemos;
Não podemos economizá-la num egoísmo estéril.
Gastar a vida é trabalhar pêlos outros, mesmo que não nos paguem;
fazer um favor a quem não vai nos retribuir;
gastar a vida é lançar-se mesmo no fracasso, se for necessário;
sem falsas prudências;
é queimar os pavios para o bem do próximo.
Somos tochas. Só temos sentido quando nos queimamos;
somente assim seremos luz. Livra-nos da prudência covarde, que nos faz evitar o sacrifício e buscar a segurança.
Gastar a vida não se faz com gestos grandiosos
e falsa teatralidade.
A vida se doa simplesmente,
sem publicidade,
como a água da fonte,
como a mãe dá o peito ao seu neném,
como o suor humilde do lavrador.
Treina-nos, Senhor, para lançarmo-nos no impossível, porque por detrás do impossível está a tua graça, tua presença;
não podemos cair no vazio.
O futuro é um enigma, nosso caminho se perde na névoa;
mas queremos continuar doando-nos porque Tu estás esperando na noite, com mil olhos humanos encharcados de lágrimas.

 
 
 
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