:: Apresentação  
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
   
Semana Social Arquidiocesana - 2003

ITINERÁRIO PARA UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Pe Emanuel Maria

I. No Alto, situações-limites e "estruturas de pecado"

· Apresentação: O Alto da Esperança é um pequeno aglomerado de favela numa descida de morro em um bairro antigo de classe média, hoje enfrentando muitos problemas como o desemprego e uma juventude ameaçada pelas drogas. No Alto conta-se como estrutura social um centro de saúde e uma creche. A comunidade eclesial conta com um pouco mais de 100 membros, envolvidos num processo de amadurecimento progressivo.
· Situações-limites e "estruturas de pecado":
O desespero perante a droga, a freqüente violência tanto da parte de policiais como dos próprios traficantes entre eles, proporcionando homicídios que podem chegar a ser diários, e tudo isso no meio da rua, defronte de crianças e adolescentes. O desespero causado pelo desemprego duradouro, a prostituição, que tradicionalmente vitimam os jovens, muitas vezes afastando-os da comunidade no final da adolescência, quando não antes. Não se vê muito bem como despertar aí o sentido do trabalho e de uma futura família.
A ajuda preciosa da casa Maria Madalena no Alto.
· Diante de tamanha desfiguração da pessoa a única alternativa encontrada é a de buscar em cada um o que permanece humano dentro de uma realidade que é profundamente desestabilizadora. Que visão de pessoa se tem?
· Escutemos o livro do Gênesis (1-11):

Adão: a soberba pessoal (amar para conhecer em vista de dominar)
Caim: a inveja mortal, a falta de perdão, a injustiça pessoal
O dilúvio: a iniqüidade (injustiça) generalizada
A torre de Babel o orgulho generalizado, Deus é deixado de fora dos projetos das nações. Daí a pergunta: "Como a comunidade pode ser um sinal batismal, pascal?"

II. Visitar um povo humilhado

A. Israël na época de Jesus:
· Um povo oprimido: os romanos, donos da tecnologia e da ciência, desprezam este povo e colocam governantes-fantoches sedentos de glória, que não hesitam em massacrar inocentes. Daí uma raiva profunda, e várias atitudes:

aceitação, a fim de se guardar uma liberdade interior
colaboração (publicanos) ou capitulação ( o alcoolismo e a "prostituição")
resistência violenta (zelotas e galileus)

· Um povo com as suas estruturas:

Os fariseus querem guardar uma identidade forte.
Os escribas quando deixam de rezar esquecem-se do essencial, devido à preocupação com a identidade e o poder.
Os saduceus, ricos, se apegam somente a certas tradições, e vivem nos compromissos

· Um povo de pobres:
Existem os trabalhadores da terra, gente simples chamados de "aqueles malditos que não conhecem a Lei..."
Existem também os mendigos, os coxos, os deficientes: "impuros", angustiados, culpados de existir; ou será que são o "próximo", que deve ser ajudado(Is 58)?
Há também os "pecadores" (prostitutas, publicanos...)
Há os essênios, fiéis à adoração, porém separados de todos e intransigentes.

Digamos, no final, que existem muitos ANAWIM, humildes em relação à Torah, e que suplicam: "de onde me virá o meu auxílio?" (sl 121)

A vida de João Batista e de Jesus criou um efeito de surpresa total: ela não estava no prolongamento daquilo que cada um imaginava. Mas ANAWIM tinha um coração bastante pobre e preparado para acolher.

B. Maria e Isabel(Lc 1, 30-56): uma aurora:

· No Brasil, não pode haver santidade sem uma presença real junto aos mais necessitados. Algumas histórias concretas.
Criar laços para abrir os ouvidos.
No Alto,visitar famílias,escutar as mães, numa atitude de pobreza, sem moralizar, mas com o tesouro da nossa fé, esperança, e caridade em Jesus, engajando-nos pessoalmente.
· Maria na visitação: laço entre a intimidade secreta, o serviço zeloso discreto, a partilha da Boa Notícia, que ressuscita a esperança, a liturgia.
· "Eu te dou o melhor do que eu tenho, e você me dá o melhor do que você tem." Não procuro me impor.

III. A mãe de Jesus pede pelo vinho, o Pai de Jesus dá o pão

A. As Bodas de Caná

· Situação: No país do amor não há mais amor nas famílias; não há mais profetas. Através do jovem casal generoso mas sem futuro, Maria vê toda a miséria do seu povo.
· A oração de intimidade entre Maria e Jesus:
-"Olhe para a miséria do teu povo, dê o vinho caloros da tua palavra que esquenta os corações frios!
-O que te preocupa, me preocupa, o que é teu é meu!
- Apressemo-nos, fazei tudo o que Ele vos disser."

E a água da boa-vontade se torna sangue de um amor super-humano, de um coração divinizado, alargado às dimensões do amor de Cristo, amor sem limites. Só Deus pode arrancar de nós um amor ilimitado ao próximo, o mesmo amor.
· No Alto, sempre buscamos escutar o grito da Mãe, esperando que ela solicite a "hora".
Quando há crises (p.ex., deserção para as seitas), procuramos reforçar a pregação da Palavra ( ex.: o Apocalipse)

B. A multiplicação dos pães (Jo 6 e Mc 6,31-34)

· Situação nova:
Grande quantidade de pessoas, necessidade de uma organização "à maneira do pastor", inteligente.
Critério da organização: que cada um possa receber a sua parte como um dom que vem pessoalmente do coração de Jesus.
Esta organização é dupla:

1. do ponto de vista da intensidade, da profundidade do humano: atingir e mobilizar todas as dimensões da pessoa. (cf.: os 7 diáconos após a Ressurreição.
2. do ponto de vista da extensão do povo de Deus, da fecundidade: atingir os quatro recantos da nossa terra, sem que se perca o caráter de dom gratuito(cf.: as cestas dos Doze, para não desperdiçar o dom de Deus, para não se tornar mimado).

· O detalhe é que o "catalizador" é um jovem que tudo dá, seus talentos...Ele se confia por inteiro a Jesus.
No Alto, vimos o efeito catalizador do grupo de adolescentes, onde os jovens encontram a possibilidade de viver amizades mais verdadeiras num clima de confiança.
No Alto, vimos a renovação da comunidade através de um tempo "gratuito" de passeio em comunidade.
No Alto, vimos como a construção da capela pelos homens da comunidade permitiu o desabrochar de várias pastorais. Tal desabrochar foi preparado com um longo trabalho: criar laços de grande confiança com as pessoas a quem as lideranças serão confiadas.

IV. O Jubileu da Ceia e a Promessa do Consolador

A. O lava-pés:

· Reconhecendo-nos pecadores, deixamos que uma comunhão na luz se realize entre nós, sob a face resplandecente do Crucificado: podemos superar os medos e nos acolhermos, em nossas diferenças (raça,sexo, etc...)
· O pé, símbolo das fragilidades a serem envolvidas de antemão com um carinho muito especial. (cf.: o lava-pés da quinta-feira santa)

B. O novo mandamento como vivê-lo entre nós, agentes de pastoral?

C. A partilha de si mesmo, carne e sangue

· Receber o corpo e o sangue de Jesus me convida a me tornar o pão e o vinho do meu irmão.
Contudo, Jesus não me dá o fruto do seu labor, o centuplo, se eu não lhe der o fruto do meu labor: cf.: o ofertório da missa.

A Hora Santa na quinta-feira, no Alto.
Aí é possível receber o abraço do Pai.
A consagração nos momentos sangrentos. Não percamos o realismo da presença do sangue de Jesus.
A missa pela paz.

D. Desejar a promessa do Consolador

· Jo 14,18: "eu virei a vós,"eu serei, eu mesmo, sarça ardente, em vós!
· Jo 14,31 "Levantai-vos, partamos daqui!"
Jo 15,5: "eu sou a videira": não há mais distância entre nós.
· Jo 15,26-27: "ele dará testemunho de mim, e vós também." É o Paráclito que ouve o apelo da criança no deserto (Gn 21,17); é ele que é chamado para perto.
· Jo 16,7: "se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós."
· Jo 16, 8-11: "estabelecerá a culpabilidade do mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento."
-Pecado: Eu creio, na minha vida pessoal e comunitária, na força de ressurreição do Ressuscitado?
-Justiça: Eu quero, pessoal e comunitariamente, honrar o Criador e dignificar a criatura?
-Julgamento: Eu discirno, para além das vãs oposições pessoais e coletivas ao Ressuscitado, a realidade tal como Deus a enxerga?
· Jo 16, 13-14: "conduzirá à verdade plena,...dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras: cf.: Apoc 19,10: "o espírito da profecia é o testemunho de Jesus."
"Ele me glorificará" = Ele manifestará em mim a vitória do amor.
· Jo 16,20-21: "a vossa tristeza se transformará em alegria"
As lágrimas do pastor suscitam um ardor novo: quando ele não agüenta mais, aí o nosso verdadeiro Senhor se revela em nós: "Eu sou".
"Eu vos verei": viver sob o seu olhar.
· Jo 17, 1.2.5: O Pai é tão pai que ele me dá de ser fonte com ele; ele se dá a mim até no seu ser fonte.
Não há rivalidade com o filho, e sim obra comum.
Que meu corpo se torne manifestação da vitória do amor sobre todos os obstáculos;
"a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna" (Jo 4,14)
· Jo 17,24: " quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo..."

V. Ao pé da Cruz

Como ficar em pé nas situações "desesperadas"? Guardemos as palavras e gestos preciosos do Senhor:
· Jo 19, 23-24: o despojamento.
· Jo 19,25-27: o encontro de dois pobres. A realização da nova Aliança. "Possuirão a terra" (Mt 5,4). A história do nosso "bom ladrão".
É preciso o sorriso, mas não basta:
· Jo 19,28-30: "Tenho sede."
Existem muitos gritos na cruz. Faz-se necessário discernir o grito do pobre.
Após a obra, o filho ainda está com sede.
Eu sirvo com gratuidade para com Jesus, ou eu traio? Fazer retiros é um luxo, ou os pobres também precisam ter acesso a estes momentos com Jesus?
"Se conhecesses o dom de Deus...!" (Jo 4,10)
"Deus abriu os olhos de Agar e ela enxergou um poço. Foi encher o odre e deu de beber ao menino". (Gn 21,19)
· Jo 19, 31-37: a ferida do coração
O golpe mortal e absurdo que fere gratuitamente àquele que já morreu nos atinge? Qual é a resposta de Deus? Os segredos de muitos corações então são revelados (Lc 2,35); esta ferida é o sigilo que reune a Igreja. Tanto a Igreja como os sacramentos nascem aí.
Quem é Lázaro? (Lc 16, 19-31; Jo 11; Mt 25)
· Jo 19, 38-42: o sepultamento

"O silêncio de Deus? É um chamado à escuta [...] 'Onde está o teu Deus?' Todavia, a verdadeira pergunta a ser colocada é uma outra: 'Onde estava o homem em Auschwitz?'[...]Sábado santo: Deus pode parecer ausente, o mal prevalecer, a dor sem sentido, as treveas invadentes. Todavia é propriamente no sábado santo que se radica a expectativa da ação definitiva de Deus, é no sábado santo que o enigma da morte se torna mistério... Mais cedo ou mais tarde acontece para cada um de nós sábado santo. Naquela hora não esqueçamos estas palavras: 'Deus verdadeiramente estava ao meu lado, mas eu não o sabia' (Gn 28,16). Na expectativa da Páscoa, aprendemos a escutar o silêncio do sábado santo."
Texto de Enzo BIANCHII, il silenzio de Dio? Tutto da ascoltare

VI. Emaús: viver a Ressureição

· Os discípulos de Emaús se afastam da comunidade, por desespero, regressando para Emaús, para as suas saudades das realizações passadas.
· Comparação entre a dinâmica da missa (no Missal) e o caminho dos discípulos de Emaús.
· A partilha, disposição para a Eucaristia, se torna propriedade dela.
· Uma sugestão para o tempo pascal: eu deixo os testemunhos dos quatro evangelhos converter a minha incredulidade no realismo da ressurreição do Senhor? Para além das aparentes contradições dos textos, eu me coloco na presença do Ressuscitado?

VII. Conclusão:

A. Fundamentação humana

Eu pertenço a uma comunidade de vida.
Porém, os agentes também formam uma comunidade e isto não deve se perder.
Não há comunidade de agentes sem cooperação, e não há cooperação sem o "co-", nem sem o "operação". Eis aqui as duas fontes de renovação de toda comunidade humana:
- o investimento na qualidade das relações pessoais entre membros;
- o investimento na competência a adquirir em vista da obra.

Cooperar não se reduz a "estar juntos" nem a "fazer a sós", pois implica em "fazer juntos, com os outros".

B. À luz da Esperança...

Quando os agentes de pastoral, entregues a pessoas reduzidas a nada, enfrentam o desespero, a descrença, é o momento de se recordar que Deus se serviu do cadáver de Jesus para comunicar o Espírito da Ressurreição e para ressuscitar a Jesus.
Neste deserto, chamamos pelo Consolador prometido?
"Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu Amor em nós é levado à perfeição. Nisto reconhecemos que permanecemos nele e ele em nós: ele nos deu o seu Espírito." (1 Jo 4, 12-13)
Quando nós, agentes, nos amamos é a fonte que deixamos jorrar em nós. Vocês que acreditam, vocês têm a vida eterna! (1 Jo 5,13)

 
 
 
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