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Usar o Nome de Deus

Por Pe. Miguel Ramon

Ao término da greve dos caminhoneiros, o presidente Temer reuniu-se com um grande grupo de pastores evangélicos e participou de um culto onde agradeceu a Deus pela iluminação recebida para resolver a crise através do diálogo. A maneira como Temer invocou Deus naquela oportunidade fez surgir na minha cabeça algumas perguntas como: que Deus é esse que o presidente invoca para agradecer? Ele agradeceu ao mesmo Deus quando escapou da condenação no Parlamento? Será que foi pela vontade de Deus que a greve acabou? E não foi da vontade Dele que os caminhoneiros reivindicassem melhores condições de trabalho e de vida?

Essas perguntas levam a outras: como as pessoas usam e abusam do nome de Deus? Quantas vezes seu Nome é usado em vão, de forma indevida e abusiva? Quantos políticos e partidos estão usando o Nome de Deus como se isso fosse uma justificativa para defender ideias, opções políticas e sociais que, na realidade, muitas vezes são uma afronta ao próprio Projeto de Deus? Talvez seja oportuno lembrar aqui que os soldados do regime Nazista na Alemanha de Adolf Hitler, tinham inscrito nas fivelas do seu cinto as palavras: “Deus conosco”. Em nome de Deus foram cometidas as piores atrocidades em tantos outros regimes ditatoriais. Na história recente tivemos os ditadores militares nos diversos países da América Latina. Professavam a fé em Deus e, com o argumento de combater o comunismo, condenaram milhares de opositores à tortura e à morte. As pessoas que conheciam de perto esta crueldade gritavam: isso NUNCA MAIS.

Diante desses e outros fatos semelhantes, precisamos nos conscientizar que nem sempre se fala de Deus de forma correta. Devemos, portanto, esclarecer alguns conceitos para tentar evitar ao máximo o uso improprio do Nome Divino.

Antes de tudo temos que reconhecer que de Deus sabemos muito pouco. Ele continua sendo um grande Mistério. Tudo que se diz a seu respeito é uma tentativa de falar Dele com palavras limitadas que temos à nossa disposição. Nunca se consegue expressar a grandeza e a profundidade daquilo que dá o maior sentido à vida humana. Em todas as tradições religiosas há uma diversidade muito grande de expressões e conceitos que procuram desvendar um pouco este Mistério. No cristianismo encontramos a maior revelação de Deus na pessoa de Jesus Cristo.

Falar de Deus sempre é arriscado, não somente porque somos limitados na capacidade de dizer algo, mas mais ainda porque podemos criar imagens falsas Dele, que mais convêm às nossas necessidades e desejos do que correspondem ao que Deus realmente é. Não é sem razão, que a Bíblia proibiu pronunciar o nome de Deus e fazer imagens Dele. A tentação de querer apoderar-se de Deus é sempre grande. Sempre precisamos ficar atentos àqueles que aproveitam de Deus por interesses próprios.

Outro elemento a considerar aqui é que a palavra “Deus”, ainda que usada por muitas pessoas, não tem o mesmo significado para todas. Mesmo pessoas que professam a mesma fé, podem ter uma compreensão bem diferenciada da palavra “Deus”. Isso é consequência do fato que cada pessoa estabelece uma relação muito pessoal com o Mistério da vida. Cada um tem sua própria história com alegrias e tristezas, derrotas e vitórias em que experimenta a presença do divino. Deus se comunica com o maior respeito para a liberdade de cada um, sem nunca se impor ou usar da força. Ele permite que a relação de Amor que Ele quer estabelecer com cada um em particular, mas não de forma isolada uns dos outros, amadureça durante toda a vida.

Portanto, usar o nome de Deus não é algo de momento ou de oportunismo, é expressão de uma vivência intima, que com profunda alegria, mas com muita humildade, podemos partilhar uns com os outros.

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Padre Miguel Ramon é o responsável pela Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC), Conexão Vida e Centro Social Dom Lucas.

 

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