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Seguir Jesus

Por Padre Miguel Calmon

Se perguntássemos a várias pessoas o que significa para elas ser cristão, receberíamos várias respostas como: participar das missas e cultos, rezar ou orar, obedecer aos mandamentos, praticar a caridade, ser bom para com os outros. A identidade cristã se confunde com práticas religiosas, devoções e ações pontuais de caridade e assistência emergencial. Pouco se fala de seguimento de Jesus Cristo, o que devia ser a primeira referência e fundamento para quem se diz cristão.

Para os primeiros discípulos soou bem claro o convite de Jesus: “vem e segue-me.” Eles deixaram sua vida costumeira e foram atrás do Mestre. Tinham o contato direto com ele nas terras da Palestina. Puderam participar diretamente da sua pregação e da sua atuação do meio do povo. “Seguir” significava para eles algo muito concreto: era acompanhar Jesus, aprender dele, receber dele as tarefas a cumprir, era compartilhar com ele a fadiga e as alegrias da missão, era estar no meio do povo e ver suas tristezas e dores transformadas em alegria e felicidade.

Nós não temos mais esta convivência com Jesus, em tudo ser humano igual a nós exceto no pecado, como era durante sua passagem por este mundo. Contudo, seu convite para segui-lo continua ressoando para quem tem ouvidos para ouvi-lo. Este convite não é somente para um grupo restrito de pessoas, p. ex. padres e religiosas, ele é para todo o povo de Deus, para toda
a humanidade.

Por vários motivos é muito importante voltar ao seguimento como eixo central do ser cristão. Muitas pessoas se dizem cristãos e surgem várias formas de espiritualidade cristã que muitas vezes parecem estar bem distantes daquilo que Jesus pregou e viveu. O nome de Jesus é invocado até para fazer exatamente o contrário daquilo que ele ensina. Alguém pode subir em um trio elétrico, marchando para Jesus, gesticulando manipular uma metralhadora nas mãos para eliminar e matar os inimigos. Jesus não ensina matar os inimigos, mas sim perdoar e amar.

Em não poucos casos, as pessoas vivem sua fé sem a mínima referência à pessoa histórica de Jesus. Elas não sabem e não se interessam em saber como foi a vida que Jesus levou, como ele falava, agia e relacionava-se com as pessoas. Podemos nos perguntar: é possível seguir a Jesus sem saber quem ele é?

Culto e devoção podem ser meios para alimentar a fé, mas não devem ofuscar o apelo ao seguimento. Pior ainda, se não produzem nenhum efeito na vida concreta, se cada um continua vivendo do jeito que lhe convém. Ser cristão é antes de tudo ser discípulo, seguidor de Jesus naquilo que ele vivenciou e propõe como caminho. É conformar a própria vida à vida de Jesus. E ter o mesmo estilo e ideal de vida que ele teve. É pensar, agir, sentir, amar, rezar como ele. Na carta aos Filipenses, o apóstolo Paulo escreve: “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo.” (Fl 2,5) Evidentemente que aqui, não se refere apenas a uma forma de sentimentalismo. Trata-se de uma maneira de viver que reflete o próprio jeito de ser do homem de Nazaré. Religiosidade puramente sentimentalista, individualista e consumista que não se aproxima do outro, especialmente o mais sofrido e necessitado não é cristã. Como escrevem os Bispos nas Diretrizes Gerais para 2019-2023: “Não é autêntica a experiência religiosa que não se concretiza na solidariedade” (n° 58).

O seguimento de Jesus implica em se perguntar o que faria Jesus aqui e agora nestas circunstâncias diante dessa situação. A resposta deve ser: na melhor sintonia possível com o agir de Jesus. Não é somente imitar, mas atualizar, agir no espírito da sua mensagem e da sua missão. Muitas situações de fato eram inexistentes no tempo de Jesus e precisa então de criatividade e de imaginação para novas ações e respostas aos novos desafios que se apresentam. O próprio Espírito nos ajuda a conhecer melhor Jesus e nos conduz para segui-lo pelo caminho.

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Padre Miguel Ramon é o responsável pela Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC), Conexão Vida e Centro Social Dom Lucas.

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