Santos: ídolos ou modelos?

Por: Padre Miguel Ramon

O Papa Francisco acaba de publicar uma exortação apostólica com o título “Gaudete et Exsultate”, “Alegrai-vos e Exultai”. São palavras dirigidas por Jesus aos que são perseguidos e difamados por serem seus discípulos, citadas no evangelho de Mateus 5, 12, no final das bem-aventuranças. As bem-aventuranças formam, no pensamento do Papa o quadro referencial para alcançar a santidade. Todos os santos e santas, de alguma forma, realizam na vida uma ou mais dessas bem-aventuranças. Nesses homens e mulheres resplendeceu algo da própria luz e santidade de Deus. É interessante olhar para eles para ver como, na sua vida, se deixaram transformar pela graça de Deus, e se tornaram exemplos de como se pode levar uma vida feliz seguindo os passos de Jesus.

Às vezes perdemos esta percepção de santidade como um caminho de vida em sintonia com as propostas de Jesus. Desvinculamos a devoção aos santos com a concreteza da vida que levaram. Dirigimos templos e fazemos novos santinhos, fazemos promessas e imploramos sua intercessão, mas esquecemos de imitar seu exemplo de amor a Deus e ao próximo. Aí que está o grande perigo de fazer deles ídolos. São adorados, mas não se tornam modelos para a própria vida.

O culto de veneração prestado aos santos, tem sentido na medida que nos deixamos tocar pelo seu exemplo para buscar realizar na própria vida algo daquilo que eles vivenciaram. Por isso é necessário nos conscientizar que santidade não é algo reservada a poucos, inacessível à grande maioria das pessoas. Ainda que, também por circunstâncias históricas, o grande número de santos e santas reconhecidos oficialmente pela Igreja, vêm de dentro do âmbito dos clérigos e religiosos, não podemos desprezar o grande testemunho de santidade de leigos e leigas, que certamente formam a grande maioria dos que se encontram diante do trono do cordeiro e são lembrados na festa de Todos os Santos.

Todos os cristãos são chamados a uma vida de santidade. Papa Francisco, citando São Paulo na carta aos Efésios diz: “o Senhor escolheu cada um de nós ‘para sermos santos e íntegros diante dele, no amor’ (Ef 1, 4)”. Isso significa que cada um precisa fazer o que pode para assumir a proposta de vida e de felicidade colocada por Jesus nas bem-aventuranças. É importante insistir aqui nas possibilidades de cada um. Cada pessoa tem capacidades e dons diferentes. Por isso que não é possível imitar pura e simplesmente a vida de outro. Cada ser humano também tem suas limitações e tendências para o pecado. Para ser santo não precisa ser perfeito. A perfeição só a Deus pertence. O importante é se deixar moldar pela graça divina para se tornar sempre mais conforme o projeto de vida que Ele sonha para cada um dos seus filhos. Citando Papa Francisco: “A santidade é o encontro da tua fragilidade com a força da graça.” Cada um vai descobrir, assim, um estilo de vida bem diferente daquele que é marcado pelo consumismo e individualismo exagerado da sociedade, que, inclusive, penetra muitas manifestações religiosas.

O mês de junho é muito apropriado para chegarmos mais perto de grandes santos como Santo Antônio, São João e São Pedro. Veneramos também outros santos, com menos devoções populares como São Barnabé e São Paulo, lembrado junto com São Pedro no mesmo dia 29 de junho, mas com pouca repercussão nas festas juninas. É um grande dom de Deus ter nos deixado exemplos tão fortes de santidade. Neles encontramos nossos semelhantes que, como nós, enfrentaram os mesmos desafios da vida. Podemos nos dirigir a estes amigos de Deus, partilhando com eles as nossas preocupações e dirigindo a eles nossos pedidos, nossas preces e louvores. Não devemos duvidar da sua força de intercessão. Mas não podemos considerá-los apenas como ídolos e semideuses que devem resolver os nossos problemas ou alcançar para nós algum benefício. É importante tentar descobrir na vida de cada santo e santa em que aspectos podem ser modelos para nossa própria vida. E, claro, nos comunicando com eles através da oração e da devoção, podem nos ajudar para nos tornarmos, também mais santos.

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Padre Miguel Ramon é o responsável pela Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC), Conexão Vida e Centro Social Dom Lucas.

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