Por uma resistência transformadora

Por: Frei Luciano Bernardi[1]

Nos primeiros meses de 2018, após as águas de Correntina – BA, vieram borbulhando, ao nosso redor e em todo o país, muitas “águas”. No centro, continua ameaçadora e cheirando mal, a água da cloaca máxima representada pela atual gerencia governamental e judiciaria do Brasil. Em ritmo acelerado, com tristes consequências para os empobrecidos, veio a triste certeza de que o ano 18 do segundo milênio, não seria tão novo e menos ainda tão feliz, como todos auguravam. Veio logo o janeiro agitado, desde Porto Alegre, com o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), que emitiu uma condenação global, com pena aumentada. Ficou evidente o abismo existente entre boa parte da opinião pública, respaldada por pessoas e instituições, competentes e honradas, do universo jurídico nacional e internacional, que questionam as decisões e já não aceitam mais identificar a chamada “justiça”, para que esteja a serviço do estado de direito, com o seu aparato atual. Ministérios públicos, juízes, supremo tribunal, ministros e ministras de governo, apoiados e sustentados por reduzidas, mas poderosas classes abastadas, com certeza, não brilham por coerência com a Lei Maior que é a Constituição Federal.

A respeito da corrupção, já está se consolidando uma consciência nova. A badalação do termo “corrupção” e  dos mecanismos da Lavajato, revelam, a todo momento, ambiguidades, instrumentalizações, diferenças de tratamento… que fazem menear a cabeça, convencendo cada dia menos. O professor e historiador Jessé Souza divulga e aprofunda o porquê disso no Brasil, num livro   que está bombando nas livrarias: “A elite do atraso – da escravidão à lavajato”. (Rio de Janeiro, Leya, 2017)

Segundo este estudioso da realidade brasileira, o atual sistema dominante no Brasil deve ser definido, sem receio, à luz também dos métodos de implantação da Lavajato, como a continuação do sistema escravocrata, ainda que adaptado à realidade moderna e pós-moderna. E’ esta a raiz venenosa que constitui o alimento da pior corrupção, a que se torna indestrutível porque “natural” ou, melhor, naturalizada por interesses de poucos: as elites do atraso e os que as elites cooptam. Sem negar a gravidade dos desvios e propinas, precisa nos darmos conta de que esta corrupção, apesar de vergonhosa, exigindo denúncias para ser combatida, não é a causa primária geradora dos males que afligem o Brasil.  O professor Jessé, em seu livro citado, insiste para que as massas populares, sobretudo suas classes médias, “saiam da tolice” de uma ideologia enganadora e abram olhos e mentes, pois a raiz fontal da corrupção, antes de mais nada, é a profunda desigualdade socioeconômica nacional e mundial. É esta que perpetua privilégios e mentalidades escravagistas, produzindo os climas irrespiráveis de hoje com uma cultura de exacerbada de auto-referencialidade violenta, disposta a defender privilégios aparentes e instáveis.

No Brasil, as CEBs, comunidades eclesiais de base, vertente eclesial ecumênica e inter-religiosa, ligada à transformação missionária da realidade, por meio da união entre a fé  e uma vida de práticas éticas e políticas, se encontraram em Londrina – PR. Como era previsível, os cerca de 6 mil representantes das CEBs amadureceram sua identidade como pequenos restos de  fermento, sal e luz,  que se atualizam cotidianamente na memória bíblica e se enxertam na história, superando, lucidamente, o receio da rebeldia profética e da subversão do evangelho.  Com base nisso, exigem reformas profundas dentro de todas as instituições, incluindo as eclesiais, e exigem mudanças na maneira de exercer o poder, passando do verticalismo autoritário à circularidade das práticas fraternas e servidoras do próprio Jesus. No fundo, aqui também trata-se de democracia! Palavra indigesta para alguns setores eclesiásticos que tem dificuldade de senti-la como a primeira consequência coerente da comunhão com o Pai Nosso. O amor solidário até à morte, é essencial para que o Deus dos cristãos, não se transforme no deus dos faraós do Egito ou do fermento de Herodes e dos fariseus (Mc 8, 14).

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[1] Frei franciscano OFMConv do Serviço Inter franciscano de Justiça, Paz e Integridade da Criação. (SINFRAJUPE), membro da CPT BA – Comissão Pastoral da Terra – Bahia.

 

 

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