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Espiritualidade e compromisso social

Por Padre José Carlos

A complexidade da vida nos leva a tornar complexo e para muito tabu a reflexão madura e profunda da relação entre fé e política, tendemos a colocar muros de separação entre ambas sem uma profunda e adulta vivencia para melhor compreender a vida.
O teólogo Leonardo Boff, ajuda a refletir dizendo: “ Antes de mais nada há que se distinguir uma política escrita com P maiúsculo e outra com p minúsculo. Ou então a política social (P) e a política partidária (p).
A política social (P) diz respeito ao bem comum da sociedade; assim por exemplo, a organização da saúde, a rede escolar, os transportes, os salários, tudo tem a ver com política social. Lutar para conseguir um posto de saúde no bairro, se unir para trazer a linha de ônibus até o alto do morro é fazer política social.
Essa política significa a busca comum do bem comum. Nesse nível todos os cidadãos e todos os cristãos católicos ou evangélicos podem e devem participar”.

Assim sendo, todo cristão deveria sentir-se estimulado a não ter tabu em relação à política, antes deveria integrar na sua vivência do Evangelho de Jesus Cristo, uma vez que é o próprio Jesus quem afirma “ VÓS SÓIS LUZ DO MUNDO” “VÓS SÓIS SAL DA TERRA”, como ser Luz e Sal, ser perceber que tem que ser presença na realidade do mundo, sobretudo nos espaços de decisão, como não se comprometer com os irmãos sem uma efetiva atitude testemunhal na construção de uma sociedade justa, igualitária, solidária, não simplesmente patrocinando uma caridade mantenedora da situação de pobreza e o que pior quando não de miséria estrema, como justificar que muitos poucos têm tudo ou às vezes detêm uma porção imoral dos bem e outros miseravelmente vivem , sem perspectivas de melhorias.Sendo um ser político, o cristão faz um instrumento de atualização, do discurso dos tempos de Jesus no capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus, onde não tem uma atitude como disse antes mantenedora da situação, mas, atualizando “dar” vem através de políticas públicas transformadores das pessoas e das realidades.

A espiritualidade da relação entre a fé a política tem seu fundamento na EUCARISTIA. Jesus lava os pés dos discípulos, os enxuga e os convida serem também servidores, a serem irmãos uns dos outros pelo mandamento Novo : “amai-vos uns aos outros como vos amei” e mais no gesto da partilha do pão e do vinho, como SEU corpo e SEU sangue e mandar que o celebrássemos em SUA memória, tornou perpétuo ensinamento que a multiplicação dos pães na montanha remete à ÚLTIMA CEIA. Essa ÚLTIMA CEIA tornada memorial, atualiza a necessidade de como seguidores de Jesus celebrar o memorial da SUA PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO em nossas comunidades eclesiais, e traduzir o gesto na partilha dos bens com os mais pobres, partir e partilhar o corpo de CRISTO JESUS com os que estão passando os mais diversos tipos de “fome” no mundo.

A fé e a política podem ser comparadas aos nossos braços que, presente em nós e no mundo, se unem num abraço para levantar os caídos, tocar nas feridas e curá-las, acolher os desesperados, indicar o caminho aos indecisos, com firmeza apontar os desvios dos bens públicos, ser pulso forte no combate ao acúmulo indevido e causador de exclusões e confirmar decisões de reerguimento, dos que nunca tiveram nenhuma oportunidade.

A fé diretamente tem a ver com Deus e seu desígnio sobre a humanidade. Mas ela está dentro da sociedade e é uma das criadoras de opinião e de decisão. Ela funciona como uma bicicleta. Possui duas rodas mediante as quais se torna efetiva na sociedade: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela oração, pelas celebrações, pelas pregações e pela leitura das Escrituras.

Pela roda da política, a fé se expressa pela prática da justiça, da solidariedade, da denúncia da corrupção. Como se vê, política aqui é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em cima das duas rodas para poder andar corretamente.

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Padre da Arquidiocese de São Salvador, oriundo de Santo Amaro, Bahia, defensor dos direitos humanos, Co-fundador da ASA e pároco da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe em Salvador.

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