Escolher os pobres

Por Pe. Miguel Ramon

Na sua rica Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” o Papa Francisco insiste repetidamente em que a Igreja seja uma Igreja pobre para os pobres. “Nunca deve faltar a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora.” (EG 195)

A opção preferencial pelos pobres, evidentemente, não deve ser confundida com posições ideológicas ou interesseiras. Trata-se sempre de olhar para as pessoas com o único interesse de promover seu bem material e espiritual. É colocar-se na defesa e promoção dos seus direitos.

Na ótica da fé cristã, cada pessoa é filho(a) de Deus, merece ser considerada e tratada como tal. Quando Jesus ensina o Pai Nosso, ele nos mostra o caminho da fraternidade universal. Deus é Pai e Mãe de todos. Qualquer forma de discriminação ou de preconceito não pode combinar com o que Jesus viveu e ensinou. Uma espiritualidade cristã só pode ser caracterizada por um amor sincero a qualquer pessoa, com grande respeito às diferenças. Não combina com ódio e vontade de eliminar e matar quem é de outra opinião ou crença.

Por outro lado, não há como não se envolver na política, se realmente queremos atingir as causas estruturais da pobreza e da exclusão social. Vamos precisar construir caminhos que levam à distribuição mais justa da renda, à criação de trabalho e outras tantas medidas que possam melhorar as condições de vida das pessoas mais sofridas. A promoção da dignidade humana passa necessariamente pela mediação da política, que, quando exercida visando o bem comum, é a forma mais elevada da caridade.

No clima de eleições que estamos vivendo, assistimos a propaganda eleitoral e lemos textos e opiniões das mais diversas, muitas vezes sem a mínima coesão e de uma vulgaridade ímpar. Mais do que a preocupação com o futuro da nação e os milhares de pessoas que nela buscam viver feliz e com dignidade, aparecem ataques pessoais e a busca do poder pelo poder. É a degeneração da vocação política e da convivência democrática.

Neste contexto as palavras do Papa Francisco podem servir de bússola para todos que em sã consciência buscam concretizar sua opção pelos pobres em escolhas políticas. Em quais candidato(s) eu vou votar para que se tenha um mínimo de garantias que os eleitos vão proporcionar uma vida mais digna e humana para aqueles que na sociedade ficam marginalizados?

Na escolha do(a) candidato(a), deve-se levar em conta o que eventualmente já tenha feito para promover a inclusão social das classes mais pobres, quais as leis que ele ou ela tem votado nesse sentido. Deve-se verificar quais os interesses ele ou ela defende na sua fala e no seu comportamento. Precisa olhar especialmente seu passado de compromisso com a transformação de uma sociedade marcada pela injustiça.

Certos políticos se aproveitam da ingenuidade dos fiéis e até de padres e bispos, se projetando como guardiões de valores cristãos como vida e família, para serem considerados como merecedores do voto. Evidentemente que a defesa da vida e da família são importantes como critérios de avaliação de um candidato. Mas é sempre necessário examinar em que medida esta preocupação se estende realmente à vida e à família dos mais pobres. Há exemplos suficientes na história do Brasil e no Continente Americano que demostram como atrás dessa bandeira se cometeram as maiores injustiças. Grandes ditadores católicos e cristãos se apresentaram como defensores dos valores cristãos contra o comunismo enquanto torturavam e matavam milhares nos porões dos seus cárceres.

Diante de tudo isso fica a pergunta: em quem votar? Como concretizar melhor a opção pelos pobres na hora de votar? Para tanto é necessário se fazer outra pergunta: Jesus votaria em quem? Precisa-se então colocar em atitude de oração e de abertura ao sopro do Espírito para que Ele nos ajude a discernir e exercer nosso direito de votar escolhendo os pobres. Não existe candidato 100%, mas precisamos escolher quem melhor corresponda à real possibilidade de melhorar a vida de um maior número possível de pobres e excluídos, construindo uma sociedade mais tolerante, justa e solidária.

 

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Padre Miguel Ramon é o responsável pela Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC), Conexão Vida e Centro Social Dom Lucas.

 

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