Discernimento e esperança

Nos meses finais de 2017, entrego aos leitores duas palavras: discernimento e esperança. Resumem a necessidade de observar em profundidade a realidade por uma tomada de posição amadurecida. Para os cristãos uma tomada de posição amadurecida é assumida quando, livremente, provem do Deus dos cristãos, o mesmo que se enxertou e encarnou na história humana em Jesus de Nazaré.  Um evento que pode ter surpreendido as vidas e as igrejas, na Bahia sobretudo urbana, foi o que ocorreu recentemente, no dia de finados, em Correntina, 1.000 km de Salvador, quando centenas de camponeses desativaram uma grande fazenda de matriz japonesa que utilizava irrigação em grande escala para as suas produções agrícolas. Isso, junto com outros fatores, prejudicava a preservação dos rios desta bacia.  Dez dias depois, após as reações furiosas do agro hidro negócio e de sua mídia, ocorreu outro evento inusitado. Com a presença popular maciça, entre 10-12 mil pessoas, na própria cidade de Correntina, a multidão proclamou em alto e bom som: “Não somos terroristas, somos defensores de nossos rios”. Para quem acompanha, há mais de 40 anos, a transformação em ato no oeste da Bahia e em outras bacias e biomas, não foi uma surpresa. A denúncia da violência no campo com suas vítimas, o trabalho educativo de base, a informação, as mais de 40 romarias da terra e das águas e do cerrado, com uma média de 7 mil pessoas por ano, os diálogos e rezas com inspiração bíblica e memória dos antepassados, transformaram muitas mulheres e homens novos nas comunidades. Os ruralistas e sua mídia hegemônica junto com os políticos da situação, gritaram ao escândalo, definindo milhares de pessoas, como bandidos e terroristas porque decidiram que não podiam mais suportar calados, em seus territórios, a destruição e o terror produzidos pelo atual modelo de desenvolvimento rural industrializado. Sobre a vida das populações ligadas à terra e às águas incumbe, de fato, um sufocamento gradual que mata a vida. Aqui entra o discernimento. O Papa Francisco denunciou, a nível mundial desde 2015, as graves contradições de certo desenvolvimento que, além das pessoas, ataca terra e água, com sua “Carta Encíclica Laudato si´”. A comunidade cientifica mundial e os movimentos ecológicos, receberam e valorizaram este documento como uma esperança para o inteiro planeta terra, definido “casa comum”, destinada por Deus para todos os seres vivos. Avançou também, independentemente das diferenças de credos religiosos, a necessidade de barrar um modelo de produção e de crescimento, que, com o brilho falso de propalado progresso, revela-se injusto e destruidor da vida. Setores dominantes, bem remunerados por grandes corporações nacionais e internacionais cuidam dele, prioritariamente, por seus interesses de lucro.

É inegável que a realidade insuportável que produziu eventos como o de Correntina aponta para o caminho de nova civilização. Quem defende a água e a terra e sua justa democratização deverá ser reconhecido e convocado a construir, junto com os setores urbanos periféricos, o Brasil novo que poderá nascer dos destroços da barbárie de hoje. Os quem tem preocupação com o futuro de seus filhos e da casa comum, não terão dúvidas de que lado estar.

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