A Pomba da Paz

A Pomba da Paz…

José passava seu tempo sentado no papelão, rabiscando papel velho com carvão. Nunca parecia satisfeito, e recomeçava sem cansar algo entre desenho e letras.

Deus de longe o contemplava, na sua dedicação e perseverança. José era homem de poucas palavras, permanecia num silêncio escolhido. Seu mundo interior era um mistério e poucos se aproximavam dele. Comunicava apenas por gestos, estereotipados e repetidos.

O rosto pouco expressivo de repente se iluminou. José pegou o pedaço de papelão onde tinha escrito, o levantou e olhou longamente. Era como se tivesse enfim representado aquilo que estava guardado dentro dele.

Deus estava no seu papelão da noite, junto ao grupo encostado no muro do Viaduto. Resolveu levantar-se e aproximar-se de José. Esse, ao perceber que alguém vinha, logo virou o papelão e o colocou no chão, escondendo sua obra.

Deus sentou do seu lado e arriscou:

“Você parece todo feliz hoje, José!”

Esse respondeu com a mão direita, o polegar para cima, e inclinou a cabeça umas três vezes, confirmando a fala de Deus.

“Você estava escrevendo no papelão, não foi?” continuou Deus.

Dessa vez José negou pela cabeça, e bem baixinho deixou escapar:

“Não sei escrever.

– Então devia ser um desenho, não foi?”

Mas a mesma resposta e negação de José, que quase repetiu:

“Não sei desenhar.”

Deus pressentiu que a obra de José no papelão, nem escrita nem desenho, era preciosa. Preferiu revelar se desejo ao autor:

“Ficaria feliz de ver o que você fez então, José! Deve ser lago bem especial…”

O rosto de José de novo se iluminou… Levantou a cabeça, um sorriso e um olhar agradecido pela atenção racharam as trevas da noite. Pegou o papelão com as duas mãos, levantou lentamente e o virou para Deus.

Nem desenho, nem escrita… Mas um desenho que era uma palavra, uma palavra desenhada… Deus admirou e exclamou:

“José, é lindo demais! É a palavra PAZ, não é? Na forma de uma pomba!!! Você é um grande artista!!!”

José baixou a cabeça, fez não com o indicador, mas um sorriso permaneceu no rosto.

“Podemos mostrar para nossa turma, aí?”

Mas a resposta de José veio firme:

“Eu queria grafitar essa mensagem por todos os muros da Cidade… Precisamos viver em paz!”

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Henrique Peregrino da Trindade é Monge, fundador da Comunidade da Trindade e da revista Aurora da Rua, comunidade e publicação voltada para População em Situação de Rua.

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