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Você se deixou carregar

Reinaldo estava se debatendo no chão, em plena crise convulsiva. Ao redor dele se aglutinavam os companheiros da rua, entre gritos e choros, sem saber como reagir. Estavam debaixo de uma ponte, e a rua ficava em cima. Janaína logo subiu os muitos degraus talhados nas pedras para pedir socorro.
Amigão estava ali calado do alto do seu imponente corpo. Sem proferir uma palavra, afastou com seus grandes braços as pessoas ao redor de Reinaldo, agachou-se e segurou o corpo convulsionado junto ao seu peito. Ergueu-se e, mudo, começou a subir os degraus. Quando alcançou a calçada, a SAMU chegava.
Janaína tomou a frente, explicou que Reinaldo, cadeirante e epiléptico, precisava de socorro. Este foi logo atendido. Diminuíram as convulsões e ele seguiu para “DEFICIENTE DE AMOR…” IRMÃO HENRIQUE, PEREGRINO DA TRINDADE a Emergência acompanhado por Janaína.
Os companheiros da rua se espalharam, voltando para debaixo da ponte ou seguindo seu caminho. Deus permaneceu junto com Amigão, sempre silencioso. Então tomou a iniciativa: “Foi muito belo como abraçou Reinaldo e o socorreu…
– Nunca levantei nem carreguei uma pessoa antes… respondeu Amigão.
– Nessa hora, só você mesmo com sua força para conseguir subir esses degraus!” Amigão estendeu seus braços fortes e murmurou como num segredo:
“Esses braços já fizeram muito mal… Não soube usar minha força para o bem. – Mas hoje você conseguiu… – Não sei como carreguei o Reinaldo… Nunca consegui me aproximar de um homem com deficiência assim, com o corpo todo machucado. Odiava qualquer deficiência.
Só que uma vez… Foi depois de um assalto. Bateram tanto em mim que me deixaram como morto. Alguém me carregou e socorreu. Me levou no hospital e desapareceu… Não morri, mas fiquei 6 meses numa cama, dependente em tudo.
Nunca soube quem foi que me socorreu… Foi como se Deus me tivesse carregado nos seus braços…
” Deus colocou a mão no ombro dele e sussurrou: “Você se deixou carregar… – Logo eu que desprezava as pessoas com deficiência! Mas eu me descobri deficiente… Deficiente de amor. Não amava, só batia. Hoje posso amar e carregar com esses braços, como essa noite com Reinaldo.”
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Henrique Peregrino da Trindade é Monge, fundador da Comunidade da Trindade e da revista Aurora da Rua, comunidade e publicação voltada para População em Situação de Rua.

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